Arquivo do dia: 26/02/2011

26/02 – Cairo após a revolução

Acordei cedo e liguei para o Khaled – o guia campeão de recomendações no Tripadvisor – mas ele não podia trabalhar, pois iria participar das “demonstrações”. Para posicionar vocês no tempo, estamos cerca de uma semana após a queda do Mubarak. Isso sem dúvida acalmou os ânimos no Egito, que estava em pé de guerra, porém a população não estava satisfeita em ser governada pelo Conselho Supremo das Forças Armadas por seis meses, como havia “ficado combinado”.

Confesso que fiquei surpreso com o fato de Khaled recusar trabalho para fazer parte das demonstrações, principalmente pois eu vinha acompanhando de perto a situação no Egito desde o início da Revolução. Em resumo, o turismo de estrangeiros no Egito tinha chegado a praticamente a zero, e para quem vive de turismo como ele, isso significava estar sem renda a quase dois meses! E ainda assim, preferia participar dos protestos a trabalhar! Isso foi algo que custei um pouco a entender.

Em fim… Como não poderia me ajudar, o Khaled me recomendou a Amina, que na verdade era a número dois em recomendações no TripAdvisor. Negociamos um pouco e acabamos fechando um dia e meio, que era o tempo que eu teria no Cairo, por USD200, incluindo todos os ingressos e o motiorista a disposição durante todo o período.

Durante o trajeto vi diversas vezes carros estacionados em fila dupla e aquilo não parecia fazer muito sentido. Perguntei à Amina como os carros bloqueados faziam para sair. A resposta foi imediata: “É só empurrar!” Os carros ficam sem o freio de mão puxado, do mesmo jetio que na orla no Rio, Guarujá, etc. Então, basta empurrar um pouco e os carros que estão presos conseguem abrir espaço para sair. A diferença é que aqui isso acontece em tudo quanto é lugar!

Apesar de o Mubarak já ter caído, era possível ver o exército nas ruas em vários locais diferentes. Ainda antes de chegar à nossa primeira parada, vi o prédio do National Party (partido do Mubarak). Havia sido completamente queimado durante a revolução! Pedi para passarmos ali perto e aquela imagem, junto com os tanques de guerra na rua foi forte que não deixava dúvidas sobre o clima de guerra… Lembro que durante a infância tive um período de verdadeira fascinação pelo Egito antigo e a civilização da época dos faraós, mas não vou negar que a revolução e a sensação de ver a história sendo escrita estava me interessando ainda mais do que as pirâmides e a história antiga.

A Amina foi me contando sobre a revolução sob a ótica dela. Eu queria sair do carro e andar no meio das manifestações, mas ela insistiu muito para que eu não fosse. O máximo que consegui foi passar de carro pelas manifestações na Tahrir Square, com o corpo fora do carro. Ela justificou explicando que já prestes a cair, o Mubarak soltou todos os presos das cadeias, e que apesar de o exército estar na rua, ainda havia uma insegurança muito forte.

A nossa primeira parada foi o Museu do Egito (ou Museu do Cairo). Minha primeira lição foi que, ao contrário do que eu pensava, o turismo não é a principal fonte de renda do Egito. É a segunda! Alguém adivinha qual é a primeira?? Acertou quem disse Canal de Suez! É o maior canal artificial do mundo (com 163km) e é responsável por boa parte do leitinho das ciranças na terra das pirâmides!

Entre uma série de estátuas e artigos do Egito antigo, umas estátuas pequeninas me chamaram a atenção. Perguntei à Amina e ela me explicou que representavam pessoas fazendo cerveja! Quem diria… 2400 anos antes de Cristo! Eita olho clínico, hein! Rsrsrs Tudo bem… Também estavam fazendo pão, mas convenhamos: isso não tem a menor importância! O que importa mesmo é a cerveja!

Outra curiosidade sobre o Egito antigo é a importância dada aos anões, que são retratados em várias pinturas e estátuas. Eram importantes por serem joalheiros muito habilidosos, mas principalmente por divertirem os reis! First things first… A importância era tamanha que muitos eram “importados” da África. Outros que eram retratados em vários momentos eram os inimigos, representados na forma de negros, asiáticos, e brancos. Não me surpreende que o império Egípcio não tenha perdurado…

Durante a visita, falamos um pouco sobre os saques sofridos pelo Museu durante a Revolução, quando o Mubarak tirou a polícia de lá. O Ministro das Antiguidades havia vindo a público na semana anterior para dizer que após a recuperação de várias peças, apenas oito peças ainda estavam desaparecidas. Obviamente uma mentira deslavada! Eu vi prateleiras inteiras vazias. A estimativas da Amina, que vivia lá, é que ainda faltem cerca de 200 peças. Deve ser mais próximo do número real… Agora o exército estava fazendo a guarda do Museu. Não faziam controle das fotos, que são proibidas ali, mas na saída fomos revistados para garantir que não estávamos roubando nada.

A Amina é visivelmente apaixonada pela história antiga do Egito e isso obviamente enriquece muito a visita, mas pelo visto não percebe que é impossível gravar os nomes de todos os reis em meia hora. Além disso, fica o tempo todo pedindo para eu adivinhar as coisas. Imagina só: “Alex, adivinha porque os reis eram representados sempre segurando algo com o braço estendido?” ou “Adivinha porque os reis usavam tanto ouro nas esculturas se a prata era mais preciosa?” Óbvio que eu não sabia nenhuma resposta, mas ela sempre falava “Tenta! É fácil!” Posso dizer que depois da quinta pergunta irrita um pouco…

Do Museu fomos para Citadelle de Saladin. Havia tanques de guerra parados na entrada, e para minha surpresa a Amina pediu para tirar uma foto comigo no tanque (depois dela, foi a vez do motorista). A Citadelle foi construída no século 12 para proteger o Egito das cruzadas que atacavam Jerusalém naquela época. Como não haveria tempo suficiente para cortar pedras para a construção, usaram a cobertura mais externa das pirâmides. Naquela época os hieróglifos ainda não haviam sido decifrados e não se sabia muito sobre os faraós, portanto eles não sabiam o crime que estavam cometendo!

A Amina me perguntou se eu já tinha ouvido falar de Saladin. Eu disse que só aquilo que a gente come antes do “main coursin”… (infame, eu sei…) Era na verdade tratava-se de um Turco que comandou o Egito no século 12 e foi quem comandou a construção da Citadelle. Dentro da Citadelle, um grupo de estudantes pediu para tirar um foto minha com eles e um cartaz que dizia “Egito: terra de paz”.

A mesquita mais importante do Egito foi construída dentro da Citadelle por Mohamed Ali (não o lutador) e leva o nome dele. Foi construída toda em alabastro (uma espécie de mármore muito comum no Egito). Um aspecto interessante da decoração da mesquita é que nela podem ser encontrados motivos cristãos. A razão é que naquela época os melhores artistas eram cristãos, então Saladin os contratou para decorar a mesquita e eles aproveitaram para deixar gravados alguns toques cristãos, como ramos de vieiras.

Sentamos ali no meio da mesquita para a Amina me falar um pouco sobre a história do lugar. Num dado momento ela solta a seguinte pergunta:

– Alex, você acredita no “julgamento”?

Vendo que eu hesitava um pouco, ela insistiu e pediu minha opinião honesta.

– Não. – respondi meio seco

– Então você acha que as pessoas podem vir aqui, fazerem o mal que bem entenderem e vai ficar tudo bem?! – ela retrucou com um ar de satisfação, de que tinha me pego no contrapé.

Como ela disse que queria a minha opinião honesta, eu expliquei a minha opinião sobre como a religião havia sido usada repetidamente como ferramenta de controle de massas e que numa sociedade fortemente regida pela religião como a Muçulmana o conceito do “Julgamento” era uma forma eficiente de se controlar o comportamento das pessoas. Ela parou, pensou um pouco e falou um pouco cabisbaixa:

– Puxa… Eu nunca tinha olhado por esse lado. Acho que você tem razão.

Dali se seguiu uma longa conversa sobre religião, história, e a atual situação política no Egito… É engraçado, mas aquela conversa – sentado ali no chão, no meio de uma mesquita – foi um daqueles momentos especiais que marcaram a viagem, como aquela volta do Kilimanjaro na van, junto com os 15 carregadores que nos ajudaram a subir a montanha!

Saímos da Citadelle e fomos para o Mercado Khan El Khalili Market, que vende de tudo, de chá, a antiguidade. As poucas coisas que eu me interessei, a Amina me contou que vêm da China! A conseqüência é que ela era a única a gastar dinheiro. Comprou colar, deu dinheiro para as meninas, engraxou as botas, e eu lá quieto! Ela nos comprou uns falafels e tomamos um chá ali no mercado mesmo, enquanto o pessoal do lado fumava uma Shisha.

Durante todo o tour, desde o Museu, várias pessoas chegavam na Amina ao vê-la comigo perguntando se o turismo estava de volta. Ela não sabia responder… Muito da nossa conversa foi em torno da atual situação do Egito. Praticamente não havia turismo naquele momento, e era clara a apreensão de todos, dado o impacto econômico da ausência de turismo na vida deles. A economia do Egito é fortemente baseada no turismo, e sem turistas a situação econômica estava séria! Ao sairmos do nosso almoço (já no final da tarde), uma horda de meninos vinha atrás de mim tentando vender tudo o que você pode imaginar! Cheguei a receber ofertas malucas, como trinta colares por cinco dólares! Mas não comprei nada. Se sem comprar o assédio já era absurdo, imagine se eu comprasse algo!

Dali, fui direto para o hotel. Tinha combinado de jantar com uma amiga, mas eu estava sem telefone no Cairo e acabamos nos desencontrando, então fui jantar num restaurante perto do hotel e dormi antes da meia-noite para me preparar para amanhã…

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Note: I believe that by now the readers of the blog are all portuguese speakers. If you got until here and didn’t understand a thing, let me know and I will keep translating the posts.


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